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AGOSTO LILÁS 2026 - Violência Contra a Mulher
25/08/2026

É uma bela oportunidade podermos conversar sobre esse tema, tão sensível e difícil, que é a violência contra a mulher. Eu vou abrir a apresentação e, em seguida passo a fala para minhas colegas.

Preparei uma linha do tempo para falar sobre o tema e também vou trazer alguns conceitos e perspectivas da Psicologia Analítica Junguiana, abordagem que utilizo para embasar meus atendimentos clínicos.

É uma abordagem teórica que dialoga muito bem com as outras áreas do conhecimento, e que entende que nós estamos conectados ao passado, que herdamos a história do mundo, e carregamos dentro de nós toda essa bagagem cultural.

A linha inicia por volta de 10.000 a.C, quando começam a se consolidar formas mais permanentes de ocupação dos territórios, antes percorridos por animais e grupos humanos caçadores- coletores.

Os humanos passam a se fixar em determinados espaços, criando condições para o desenvolvimento da agricultura, da tecnologia, do crescimento populacional e de formas mais complexas de organização social...

Na imagem acima da linha do tempo a faixa cinza na linha superior: seria uma linha contínua de agressão e violência que se estende desde os primórdios da humanidade. A linha nos sugere algo... de que temos enquanto espécie uma persistente disposição para a violência.

Segundo um autor específico da base teórica citada: A nossa ânsia agressiva não se deve apenas à uma reação ao medo e à frustração, mas também à fatores inconscientes. Segundo alguns autores da abordagem analítica, a agressividade sempre precisou ser moderada, a fim de que se pudesse encontrar a sua expressão dentro dos limites socialmente aceitos.

Sobre a faixa cinza temos as linhas com escritos em vermelho, que apontam alguns documentos históricos que podemos entender como marcos dessa busca por reduzir os níveis de violência, a favor dos limites socialmente aceitos.

Em algumas variantes da perspectiva da Psicologia Analítica, se utiliza conceitos como o de consciência matriarcal e consciência patriarcal, que podem ser compreendidas como padrões ou estilos de consciência. O estilo matriarcal seria mais marcado por uma experiência mais direta da pessoa com a profundidade de suas emoções e instintos, enquanto o estilo patriarcal tenderia a organizar e normatizar essa experiência por meio da lei, da ordem e da racionalização.

É feito uma advertência sobre quando nos deixamos dominar por um único padrão de consciência. Por exemplo, se uma pessoa ficar muito orientada por um único estilo de consciência, das leis e regras, acabará que reproduzindo uma repressão contra o outro estilo: da relação mais livre e espontânea com as emoções, paixões e festividades.

É importante não associar esses dois padrões de estilos de consciência (matriarcal e patriarcal) diretamente às pessoas, muito menos aos gêneros, pois são padrões universais, podendo ambos estarem presentes tanto em homens e mulheres, quanto em sociedades, em instituições, escolas, empresas, atividades... A diferença entre eles está relacionada aos aspectos que são mais valorizados na experiência psicológica.   

Apesar dos padrões serem universais, eles se realizam de forma particular. Na nossa história a posição da mulher acabou muitas vezes sendo subordinada à do homem: como esposa permanecia sob sua tutela e, como filha, passava para a tutela da família do marido após o casamento.  Por exemplo na linha do tempo no período da antiguidade  a lei das 12 tábuas, 450 a.C.

Podemos especular que algumas dessas leis teriam sido concebidas como uma forma de atribuir ao homem o dever de proteger sua família, mas acabaram que produzindo relações assimétricas entre os gêneros. Por exemplo na elegibilidade para propriedade e herança, concedendo mais poder à figura masculina, que a partir dessa condição passa a então angariar mais direitos para si. Por exemplo na punição por adultério, em muitas situações a posição da mulher fica defasada em relação à do homem. Textos legais e religiosos desse período registram normas que regulavam o casamento, dote, virgindade, transmissões de bens, relações familiares, contribuindo para formas de submissão da sexualidade feminina aos interesses familiares e econômicos.

Avançando na linha do tempo:

Com o advento do cristianismo as leis e costumes passam a incorporar a moral cristã, transformando a religiosidade e cultura, e atualizando as referências do papel da mulher na família e na sociedade. • Nesse contexto em 1386 ocorreu o julgamento de Marguerite de Carrouges, o filme “O último Duelo” nos permite assistir essa corajosa denuncia de estupro, de uma mulher que enfrentou um julgamento, teve sua palavra contestada e levada à solução por meio do duelo. O credo da época previa que nas disputas por duelos, deus favoreceria a justiça. Se Jean (marido de Marguerite) perdesse o duelo, Marguerite seria condenada à morte por falso testemunho. Essa passagem marca avanço, pois a mulher deixa de aparecer apenas como de vítima da violência, e passa a ocupar também o lugar de quem denuncia e busca a justiça.

Avançando na linha do tempo temos o renascimento cultural, o fim do período medieval, expansão comercial.  Grandes navegações, descoberta do novo mundo, contato com sociedades indígenas e novas referências do papel e autoridade da mulher. Neste contexto temos a valorização da ciência, e da moral burguesa, que passam a influenciar fortemente os costumes das sociedades do mundo moderno.

Um marco importante da violência: • Tráfico de escravos Africanos como mão de obra para as Américas, violência sexual, exploração e separação familiar. A mulher negra foi particularmente submetida na sociedade escravista colonial. Período de forte violação da condição da mulher, seu corpo e seu trabalho eram explorados para produzir e reproduzir riqueza. Além da condição violenta das Senzalas mulheres negras chamadas de Mucamas também trabalhavam dentro das casas dos senhorios, para trabalhos domésticos e ficavam expostas à violência sexual. No Brasil tivemos importantes marcos, como a da Lei Aurea, mas em geral nossa cultura permaneceu com influências ligadas ao Coronelismo, que valoriza a figura do poder e autoridade.

 Temos então as guerras mundiais seguidas por importantes marcos e convenções que virão a marcar mudanças nos direitos das mulheres. •1948 Declaração Universal dos Direitos Humanos •1969 o grupo New York Radical Women protestou contra o concurso Miss América, que marcou a Segunda Onda do Feminismo com a crítica à objetificação do corpo e padrões da aparência feminina e a forma como o concurso reduzia a mulher à aparência. As manifestantes colocaram sutiãs, cílios, cintas e outros objetos numa “lata da liberdade” e acabou se tornando um símbolo do feminismo.  É isso, encerro aqui a linha do tempo, desse assunto de peso, mas a linha continua, é a nossa história, que tanto nos afeta e que devemos cuidar para prevenir a violência e celebrar os avanços, mas cuidar para não retrocedermos além do necessário. 

Publicado por
Augusto Faria Roos

Profissional em atividade como clínico psicoterapeuta desde 2009, abordagem teórica da psicologia arquetípica. Atendimentos individuais de jovens e adultos.

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